sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Bom velhinho


Bom velhinho
  O bom velhinho existe. Eu vi, eu vivi.
Caminhei desengonçado pelas ruas, espanto geral!
Não achei que seria capaz, não premeditei, aconteceu, adorei.
Todos viam, todos acenavam; alguns, juvenis, meio acanhados, outros
infantis, extasiados. O palavra era comum : é ele mamãe ...
É ele filhinho, olha lá! Dedos apontavam para minha direção.
Até ranzinzas dobrei... "não reclame, se adoce, tome uma balinha"
e sem querer o branco dos dentes roubei.
Crianças de todo lado corriam a mim, parecia que nada tinha
mais sentido, o tempo não tinha mais fim.
Uma pequena bala é muito... "quero uma, me dá uma ..."
e a satisfação daquele sorriso amolecia o coração do homem duro.
O obrigado era raro... a pouca instrução justificava tudo ...
o brilho no olhar me era caro ... eu ficava mudo.
É loucura ! O que faço aqui?
Isso não acontece ... mas é justo, não parti.
De rua em rua, entrando e saindo do comércio aberto,
via a alegria nascendo, via a criança sorrindo,
via seus olhos brilhando ... nada pode ser mais lindo!
Uma chupeta ganhei, justo uma chupeta,
o objeto da devoção infantil... e tudo por uma bala...
uma bala da minha mão... isso mostrava a força daquele ser.
Amuado na calçada um franzino estava triste ...
que foi menino lindo, porque essa tristeza?
A resposta cortou o coração, veio da mãe... "ele saiu agora do
hospital e fez questão de parar para ver o senhor..."
O "senhor" não vinha com sentido de poder mas de respeito
ao espírito que eu assumia naquela hora. E vinha com humildade,
entrecortado... eu representava um sonho que ela tivera no passado.
O rosto pálido do menino se enrubesceu... a cor voltou... sorriu,
pegou a bala, guardou e de olho iluminado tocou na barba...
sua  expressão de alegria valia tudo que já tinha acontecido...
aquilo era um exemplo lindo.
Ricos e pobres não faziam distinção, entre crianças não há separação.
Chegavam, tocavam sentiam e pegavam na mão, eu não era só visão.
Ela que outrora fora instrumento de justiça, prendendo e soltando em
nome da sociedade só tinha um destino agora... afagos nas pequenas
cabeças ... um carinho naquelas vidas sem maldade.
Duas horas se passaram como um relâmpago ...
a fantasia foi embora em mim... mas a realidade daquele
dia nunca se apagará, nunca terá fim.
A lição da vida bate em nossa porta, devemos ouvi-la sempre,
seja o que for, como for e quando for, não importa...
Estrelas brilhavam forte, qual os olhinhos infantis que vi.
Meu rosto se salgou ... a lágrima inesperada eu senti.
Eu tinha sido uma miragem sem véu ... mexi com pequenas vidas ...
tenho certeza também que em relação aos adultos com velhas feridas ...
A lua agigantada iluminava todo o céu ... acabava minha missão ...
tinha sido um dia papai noel ... uma doce ilusão.
A vida segue agora seu curso normal... mas eu não sou mais igual ...
afinal, fui o bom velhinho em um Natal ...
ho ho ho Feliz Natal ...

Autoor : Lombardi