O bom velhinho existe. Eu vi, eu vivi. Caminhei desengonçado pelas ruas, espanto geral! Não achei que seria capaz, não premeditei, aconteceu, adorei. Todos viam, todos acenavam; alguns, juvenis, meio acanhados, outros infantis, extasiados. O palavra era comum : é ele mamãe ... É ele filhinho, olha lá! Dedos apontavam para minha direção. Até ranzinzas dobrei... "não reclame, se adoce, tome uma balinha" e sem querer o branco dos dentes roubei. Crianças de todo lado corriam a mim, parecia que nada tinha mais sentido, o tempo não tinha mais fim. Uma pequena bala é muito... "quero uma, me dá uma ..." e a satisfação daquele sorriso amolecia o coração do homem duro. O obrigado era raro... a pouca instrução justificava tudo ... o brilho no olhar me era caro ... eu ficava mudo. É loucura ! O que faço aqui? Isso não acontece ... mas é justo, não parti. De rua em rua, entrando e saindo do comércio aberto, via a alegria nascendo, via a criança sorrindo, via seus olhos brilhando ... nada pode ser mais lindo! Uma chupeta ganhei, justo uma chupeta, o objeto da devoção infantil... e tudo por uma bala... uma bala da minha mão... isso mostrava a força daquele ser. Amuado na calçada um franzino estava triste ... que foi menino lindo, porque essa tristeza? A resposta cortou o coração, veio da mãe... "ele saiu agora do hospital e fez questão de parar para ver o senhor..." O "senhor" não vinha com sentido de poder mas de respeito ao espírito que eu assumia naquela hora. E vinha com humildade, entrecortado... eu representava um sonho que ela tivera no passado. O rosto pálido do menino se enrubesceu... a cor voltou... sorriu, pegou a bala, guardou e de olho iluminado tocou na barba... sua expressão de alegria valia tudo que já tinha acontecido... aquilo era um exemplo lindo. Ricos e pobres não faziam distinção, entre crianças não há separação. Chegavam, tocavam sentiam e pegavam na mão, eu não era só visão. Ela que outrora fora instrumento de justiça, prendendo e soltando em nome da sociedade só tinha um destino agora... afagos nas pequenas cabeças ... um carinho naquelas vidas sem maldade. Duas horas se passaram como um relâmpago ... a fantasia foi embora em mim... mas a realidade daquele dia nunca se apagará, nunca terá fim. A lição da vida bate em nossa porta, devemos ouvi-la sempre, seja o que for, como for e quando for, não importa... Estrelas brilhavam forte, qual os olhinhos infantis que vi. Meu rosto se salgou ... a lágrima inesperada eu senti. Eu tinha sido uma miragem sem véu ... mexi com pequenas vidas ... tenho certeza também que em relação aos adultos com velhas feridas ... A lua agigantada iluminava todo o céu ... acabava minha missão ... tinha sido um dia papai noel ... uma doce ilusão. A vida segue agora seu curso normal... mas eu não sou mais igual ... afinal, fui o bom velhinho em um Natal ... ho ho ho Feliz Natal ... |
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Bom velhinho
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